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terça-feira, 22 de outubro de 2013

CRÍTICA DE SARTRE À PSICOLOGIA, ARTE, POESIA E MÚSICA


     Sartre foi o principal representante do existencialismo francês, um dos mais famosos pensadores do século XX, destacando-se como filósofo e romancista. Militou na resistência francesa chegando a ser preso pelos alemães e foi um dos poucos pensadores a não pertencer ao mundo acadêmico. No início de sua carreira foi influenciado pela fenomenologia de Husserl, depois, desenvolveu sua própria filosofia, uma filosofia da existência, a partir de uma análise da condição humana, do homem como “um ser que a existência precede a essência”. Sartre foi um ateísta. Para ele, a vida diante da morte é um absurdo, a consciência da finitude deve levar o homem à busca de uma justificativa, de um sentido para a existência humana. Assim, o existencialismo é um *humanismo. Logo, a consciência é, portanto, o elemento central dessa busca de sentido, e é essa consciência que revela a existência do *outro, sem a qual ela não pode existir, já que a consciência só existe através daquilo de que é consciência. Sua obra principal que trata desse tema é O Ser e o Nada (1943). A *liberdade para Sartre é uma das características mais fundamentais da existência humana. Segundo ele, paradoxalmente, “o homem está condenado a ser livre”, e precisa assumir essa liberdade vivendo autenticamente seu projeto de vida – seu engajamento – recusando os papéis sociais que lhe são impostos pelas normas convencionais da sociedade. É assim que “nós somos aquilo que fazemos do que fazem de nós”.
     Neste trabalho analisarei o engajamento de Sartre por meio da Literatura (prosa) e sua crítica ao psicologismo, à arte, poesia e música.
  
SARTE, JEAN-PAUL (1905-1980)
     Segundo Sartre, é preciso decifrar o sujeito. Linguagem é fala; práxis humana. Quando falo, existo no mundo; quando faço estou sendo no mundo. (interiorização e exteriorização). Para Sartre, o sujeito da experiência é livre. Sem consciência, sem ego, sem substancialidade, a sua identidade está na experiência, Sartre fala com essa propriedade porque participou da guerra. Dialética é diferente de estrutura. As estruturas são fixas, a dialética não.
Para Husserl, a fenomenologia é o estudo das essências; para Sartre, a existência precede a essência. 
     Sartre foi um filósofo engajado, e, segundo ele, a literatura, é o meio autêntico de se engajar e interferir na realidade mundana, a sociedade. Para defender seu método de engajamento criticou em especial o psicologismo, a arte, a poesia e a música.
Psicologismo:
     Para os empiristas positivistas o conhecimento se dá a posteriori, após a experiência de estar diante do objeto, observando-o enquanto submetido a algum método de intervenção sobre ele. Antes disso só há hipóteses a priori, e estas, sem método não passa de especulação, de meras hipóteses, de teses. Se referindo à psicologia Sartre escreve:
A psicologia é uma disciplina que pretende ser positiva, isto é, quer obter seus recursos exclusivamente da experiência. Certamente não estamos mais no tempo dos associacionistas, e os psicólogos contemporâneos não se proíbem de interrogar e de interpretar. Mas eles querem estar diante do objeto como o físico diante do dele. Além disso, é preciso limitar esse conceito de experiência, quando se fala da psicologia contemporânea, pois afinal pode haver uma quantidade de experiências diversas e, por exemplo, pode-se ter que decidir se existe ou não uma experiência das essências ou dos valores, ou uma experiência religiosa. [...] (SARTRE, Jean-Paul. Esboço para uma teoria das emoções. P. 13. Coleção L&PM POCKET. Porto Alegre – RS – Brasil. 2013)

            Outra discussão entre os psicologistas é quanto ao método da experiência; dois deles estão em seus horizontes: a percepção espaço-temporal dos corpos organizados, e o conhecimento intuitivo de nós mesmos que chamamos experiência reflexiva. Se há entre eles debate sobre o método citado acima, deve-se perguntar: esses dois tipos de informações são complementares? Deve-se subordinar um ao outro ou convém descartar decididamente um deles? Mas eles estão de acordo quanto a um princípio essencial: “a investigação deve partir antes de tudo dos fatos”. Quanto a essa conclusão Sartre argumenta:
Se nos perguntarmos o que é um fato, vemos que ele se define como algo que se deve encontrar no curso de uma pesquisa, e que se apresenta sempre como um enriquecimento inesperado e uma novidade em relação aos fatos anteriores. Portanto, não se deve esperar dos fatos que eles se organizem por si mesmos numa totalidade sintética que forneceria por si mesma sua significação. Em outras palavras, se é chamada antropologia uma disciplina que visaria a definir a essência do homem e a condição humana, a psicologia – mesmo a psicologia do homem – não é e nunca será uma antropologia. Ela não quer definir e limitar a priori o objeto de sua pesquisa. A noção de homem que ela aceita é inteiramente empírica: há no mundo um certo número de criaturas que oferecem à experiência caracteres análogos. [...] (Ibid. p. 14)

Arte:
     Para Sartre, o engajamento só é possível por meio da literatura, em especial a prosa, pois esta se expressa por meio dos signos, da fala falada e suas ambiguidades, algo impossível à arte, poesia e música que são coisas determinadas, isto é, estão sujeitas às regras predeterminadas, desprovidos de sentidos ambíguos.
A prosa é o lugar do signo, significado; a poesia trata a fala como coisa, está sujeita a um método, à métrica; para os poetas significado é coisa, a palavra é imagem do mundo, a frase é um objeto, um mito do homem.  Pelo contrário, a prosa é utilitária; o prosador é servo da palavra. Para a poesia não existe o signo e sim a coisa. A coisa é fixa. O poeta tira a ambiguidade e trata as palavras como coisa; boa poesia tem que estar sujeito à métrica. Boa música tem que estar sujeita ao método musical, toda e qualquer variante está limitada à matemática do método, logo, engessada; por mais variações que possa haver não passa de combinações harmônicas dependentes das mesmas notas, seus tons e semitons. Na arte pictórica não se se separa o fundo (base) da forma (pintura). Assim sendo, como coisas determinadas, torna-se “impossível” o engajamento por meio delas.
     Segundo dicionário da língua portuguesa, prosa: Modo de falar, dizer, escrever, mais ou menos natural, segundo o hábito e uso natural da vida; aquilo que se diz e escreve em oposição a poesia, / fig. O que há de vulgar, de trivial, de ordinário, de material, de positivo, de menos poético.
Sartre:
[...] Na verdade, a poesia não se serve de palavras; eu diria antes que ela as serve. Os poetas são homens que se recusam a utilizar a linguagem. Ora, como é na linguagem e pela linguagem, concebida como uma espécie de instrumento que se opera em busca da verdade, não se deve imaginar que os poetas pretendem discernir o verdadeiro, ou dá-lo a conhecer. [...] Na verdade, o poeta se afastou por completo da linguagem-instrumento; escolheu de uma vez por todas a atitude poética que considera as palavras como coisas e não como signos. [...] (SARTRE, Jean-Paul. O QUE É LITERATUARA, P.13. Ed. Ática, 2004)

Ao contrário: “O escritor é um falador, designa, demonstra, ordena, recusa, interpreta, suplica, insulta, persuade, insinua. Se o faz no vazio, nem por isso se torna poeta: é um prosador que fala para não dizer nada. Já vimos suficientemente a linguagem pelo avesso; convém agora, considerá-la do lado direito”. A arte da prosa é naturalmente significante; as palavras designam objetos, não são objetos, não se trata de saber se elas agradam ou desagradam por si próprias, mas se indica determinada coisa corretamente no mundo, a prosa é uma atitude do espírito.
Assim a linguagem: ela é nossa carapaça e nossas antenas, protege-nos contra os outros e informa-nos a respeito deles, é um prolongamento dos nossos sentidos. Estamos na linguagem como em nosso corpo; nós a sentimos espontaneamente ultrapassando-a em direção a outros fins, tal como sentimos nossas mãos e os nossos pés; percebemos a linguagem quando é outro que a emprega, assim como percebemos os membros alheios. (Ibid. p. 19)

CONCLUSÃO
Minha Opinião:
     A crítica de Sartre não atinge a poesia bíblica, hebraica; sua ênfase não está na rima e nem na métrica ocidental, mas, no jogo de ideias, facilitando assim o aprendizado que se dava através dos recitais e dos cânticos. Não havia produção literária popularizada, por isso a ênfase numa certa prosa-poética que jogava com as ideias sobrepostas, paralelas, era útil ao ensino e aprendizado da época. “*Lâmpada para os meus pés é Tua palavra, e *luz para o meu caminho”. (Salmo 119: 105) A ênfase dada ao paralelismo é facilmente percebida entre: Lâmpada e luz; pés e caminho. Ambos enaltecem a palavra revelada. Vários livros bíblicos são poéticos, e o contexto histórico justificava tal estilo de produção literária, pois este, naqueles idos, era o melhor meio para se educar moralmente e ensinar outros princípios divinos.   
     Com relação à música, embora esteja sujeita ao método-musical-matemático, independente do ritmo, ela nos leva à transcendência da materialidade vivida; os gregos por meio do baile das mascaras faziam das tragédias gregas um culto transcendental, naqueles idos eles já buscavam a transcendência mística, aquelas reuniões embaladas pelo som, os levavam a superar a tristeza pela perda de seus jovens guerreiros. Os jovens gregos se inspiravam na imortalidade de seus deuses, eram assim, iludidos a pensarem que, se morressem em combate seriam semelhantes aos deuses, imortais.  E assim, diante da morte dos soldados seus familiares recorriam àquelas reuniões trágicas para superarem suas tristezas, tentando dar sentido ao viver sem sentido que os politeístas órficos induzia-os. A música tem esse poder, de fazer-nos transcender do estado natural ao místico. Os africanos, ao som dos tambores transcendem com o intuito de superarem seu sofrimento, e assim, cada um de nós, independente de cultura e/ou religião, nos apegamos aos diferentes ritmos sacros ou não para superarmos a dureza que o sobreviver impõe-nos, ou, por alguns minutos esquecer e/ou encontrar forças para superar nossos problemas pessoais. Assim sendo, a música tem seu valor no engajamento e reengajamento do homem na vida vivida, na história. A música “Sacra”, evangélica ou gospel, nos dias atuais estão se fundindo ao estilo mundano, popular; tanto no ritmo, quanto nas letras e modos de se apresentar. A busca pela popularidade e o comércio evangélico dessa arte, está tornando difícil distinguir o sacro do profano. Assim fica difícil para o sacro ser um instrumento divino para engajar pessoas aos princípios bíblicos, divino. Deus e Sua obra não precisa dessa fusão, Satanás sim. Já é passada a hora dos professos seguidores de Cristo saber a quem servir com todo o entendimento. Se Deus, segui-O, se Satanás, segui-o, o que não pode é tentar seguir a ambos, pois, isto é impossível na obra de Deus. Os púlpitos eletrônicos (TVs) estão formando uma nova lógica cristã, “cristãos” destituídos dos princípios bíblicos, adeptos dos modismos mundanos, tudo isso, na maioria das vezes, para se promover pessoalmente em nome de Deus ou da religião. “Por ventura, quando vier o filho do homem encontrará fé na Terra”?
     A arte, segundo a semiótica, é também um tipo de linguagem simbólica, e, de algum modo, ela consegue engajar alguém, uns poucos, mas consegue. A dificuldade que vejo aos artistas dessa área é fazer com que esta se torne popular como é a literatura e a música, de modo que a população em geral possa se engajar no mundo por meio dela. Ver e entender o mundo através da arte é possível, mas é para poucos, mas nem por isso não tem a sua utilidade cognitiva, logo, capaz de engajamento. A prosa tem sua vantagem por poder trabalhar com todos os signos, superando-os de suas limitações predeterminadas pelos métodos; transcendendo-os à ambiguidade da prosa. É esta, entendo eu, a “superioridade” da prosa sobre os outros meios de expressão: poder utilizar-se dessas “coisas” transformando-as em signos, meios de engajamentos.
     Nosso planeta é o mundo das contingências, logo, há poesia, arte, música e literaturas boas e ruins, bons e ruins são subjetivos. O fato de ser sacra não as faz boas, e o de não ser sacras não as faz ruins, logo, há o sacro bom e o ruim, como há o popular bom e ruim. Bons e ruins em ritmo, letras e interpretações sempre existiram e sempre existirá; entendo que o que é bom consegue se engajar melhor que o ruim, que, naturalmente, tende-se a “desaparecer”, cair no esquecimento.

Filósofo Isaías Correia Ribas